No dia 1 de abril de 1982, vinha eu transferida da Secretaria Regional da Agricultura e Pescas, na Avenida Zarco, e entrava nesta escola, atravessando a entrada principal, espaço que estava cheio de móveis fechados e com cartões. Subi as escadas do 1.º pavilhão e fui apresentar-me ao Presidente da Comissão Instaladora, o Sr. Padre Isidro.
De repente, senti uns arrepios, e pensei para mim, para onde venho trabalhar, que responsabilidades terei! O meu coração saltou, e dentro de mim surgiu, imediatamente, um entusiasmo, um impulso, e pensei, vai em frente, vais conseguir, tens muita coisa para dar!
Olhava em redor e nem uma folha de papel, tudo era estranho e sem vida. Do Presidente um despacho, teria de ir para a educação, fazer um estágio de 3 meses, na parte da contabilidade, para iniciar funções na escola a 1 de julho.
Apresentei-me na educação, e fui recebida com muito carinho. O trabalho começava, o Sr. Afonso, com outros dois funcionários, a Sra. Filomena Jardim e o Sr. Agostinho, que verificavam requisições e contas de gerência das escolas. Ao lado, estava uma jovem grávida, simpática, a Dra. Guida Pina. Os olhares atravessaram-se, ela abria os processos dos funcionários, docentes de todas as escolas. E durante 3 meses, a minha rotina foi verificar, apontar e guardar toda a informação, que me ia sendo transmitida.
Terminado o estágio, no dia 1 de julho, regressei a Santana, para enfrentar um desafio, iniciar a preparação do ano letivo 1982-1983. O trabalho começou, publicitação de matrículas, as matrículas, elaborar as folhas dos vencimentos, pagamentos, descontos, tudo era feito manualmente, nem máquina de calcular havia. Assegurar também a parte da Ação Social Escolar, bem como da área do pessoal, recursos, alunos, expediente, arquivo. Também era preciso a preparação das turmas e dos horários dos alunos, feitos manualmente. Depois seguiu-se a chegada dos assistentes técnicos, assistentes operacionais, cozinheiras e ajudantes de cozinha, e recolheu-se todos os dados dos funcionários, para o processamento dos vencimentos.
Ao mesmo tempo que se organizava a inauguração oficial da escola, decorria a preparação para o início das aulas. A abertura da cantina e formação das cozinheiras, na Jaime Moniz, a abertura do bar dos alunos, professores e funcionários, para que tudo estivesse em ordem, para o dia da inauguração, com todos os funcionários fardados, para o grande evento do Concelho.
A organização do evento implicou elaborar as convocatórias e ofícios aos membros do governo, diretores regionais, aos párocos das freguesias, a publicitação nas eucaristias dominicais, pois era o melhor meio de comunicação para a população, pois não havia televisão na maioria das casas, nem diários, nem jornais.
No dia da inauguração, a 10 de outubro de 1982, houve festa com a Banda Municipal de Santana, no pátio do 1.º pavilhão. Assistiu-se aos discursos do Presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim. Descreveu o evento como uma oportunidade, uma descoberta para os jovens do Concelho, que agora poderiam continuar a estudar, sem saírem das suas casas e das suas famílias. Houve um pequeno beberete na cantina, para os políticos e convidados. Os trabalhadores tiveram de ficar nos seus postos de trabalho, pois não podíamos parar, havia muito a fazer e a preparar, para que no dia seguinte se iniciassem as aulas.
A partir daquele dia, foi sempre um dia após o outro, sem parar, sem baixar os braços, para colocar tudo a funcionar, sem faltar o necessário, aos alunos, professores e funcionários. Todos trabalhavam com entusiasmo e empenho na escola. As tarefas eram divididas nos serviços administrativos, ação social escolar, cozinha, pessoal auxiliar.
Os alunos vinham nos autocarros, fretados pela escola, de todas as freguesias do concelho. Saíam ao pé da Câmara Municipal e vinham todos a correr pela vila, até à escola, estivesse sol, chuva, vento ou granizo. Os alunos estavam felizes e alguns deles tinham mesmo regressado à escola, porque para irem para o Funchal estudar, os pais não deixavam. De tarde, quando saíam, era igual e iam novamente à carreira, para apanhar o autocarro.
Quando os alunos tinham algum acidente, eram levados ao Centro de Saúde de Santana, pelos funcionários ou, muitas vezes, pelo presidente do Conselho Executivo, ou ainda pelos próprios professores. Nada como agora, que há bombeiros, ambulância, etc.
No início, não foi fácil para a comunidade escolar, por causa da construção separada dos diferentes pavilhões, sem uma ligação coberta entre eles. Os alunos, professores e funcionários tinham de levar com a chuva, vento, granizo e vento, quando vinham ao bar, no 1.º pavilhão, os professores, quando tinham de ir de um pavilhão para o outro, para dar aulas, ou os funcionários, para levarem o livro do ponto. Com grande persistência, por parte da escola, vieram colocar a cobertura entre os pavilhões, tão desejada por todos.
Naquela época, os professores não tinham máquinas de escrever em casa, e quem tinha de passar os testes eram os serviços administrativos, para depois fazer fotocópia, ou então colocar na máquina que duplicava a tinta (stencil), mas que muitas vezes borrava e por isso tínhamos de fazer tudo de novo. O trabalho era manual e a máquina fazia um barulho que parecia um comboio, e por vezes brincávamos com a situação. Ficávamos com os dedos pretos da tinta, quando se encaixava os testes de papel stencil. Tudo se ultrapassava e tudo se fazia com muita persistência.
Chegado o fim dos períodos, tínhamos de bater à máquina as pautas dos alunos, para lançarem as notas, nada podia falhar, nem nome, número ou ordem na lista dos alunos. Eram enviadas ao Conselho Executivo, para as reuniões e poderem lançar as notas. Se lá lançassem uma nota trocada, tínhamos de fazer tudo de novo, bater a pauta novamente, por vezes ficávamos à noite na secretaria, para o caso de ser necessário.
No Natal havia sempre atividades na cantina. Os alunos podiam participar nas comemorações de Natal, incluindo os professores com o teatro. No final do ano, os alunos colocavam música e faziam atividades. O baile de finalistas era feito na cantina. Havia choros porque havia uns que iam estudar e outros que iam para casa, para ajudar a família ou então emigravam.
A escola foi crescendo, tanto no número de alunos, como no de professores, e nos anos de escolaridade, um orgulho no trabalho de todos. Com os equipamentos, tudo se foi modernizando, da era do manual aos computadores, que hoje se verifica, passou-se dos manuais escolares em papel, para os manuais digitais.
Quero salientar que, após 40 anos de existência da nossa escola, posso considerar que foi um marco e uma referência para os jovens, não só em termos de inovação didático-pedagógica, mas também de projetos e experiências. Em termos de intervenção foi decisiva na vida dos alunos, quando se trata da prevenção, a nível da saúde, cidadania e integração multicultural.
Como forma de homenagear os 40 anos da escola, deixo uma mensagem do que me apraz no momento. “Se a chuva representasse o que sinto, nestes 40 anos de vida pela escola, só mesmo um “tsunami” diria o que sinto.”